quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O anarco-capitalismo não é só bipolar, é também arrogante. Receita médica: COMUNISMO


Um anónimo comentou isto no post "Anarquismo bipolar" em defesa do anarco-capitalismo :

""olha agora vem um menino com conhecimentos de wikipedia e youtube falar do que não sabe. podia ao menos refutar um único principio do anarco-sindicalismo? li e não encontrei uma única refutação. pelo menos uma, num texto tão grande...
os unicos argumentos provêm de erros semanticos, ou das varias interpretações que as palavras possam ter actualmente, e que não corresponde à sua verdadeira origem e que tocam superficialmente (de raspão) os temas."

"em vez de empreender por um discurso que não acrescenta nada, a não ser a pessoas ignorantes, poderia ter alguma honestidade intelectual, mas como Hoppe afirmou: «logical consistency is not a requirement for an anti-rationalist»
se calhar se lesse mesmo adam smith, perceberia o grande erro que acabou de cometer e que só comprova que não faz a menor ideia do que fala."

O Anarco-capitalismo bipolar e arrogante

Além deste ser, pensante, não só ser pensante, mas majestoso sábio e intelectualmente muito avançado, fala muito de refutações mas mal sabe que o texto não é sobre anarco-sindicalismo, mas anarco-capitalismo.

"podia ao menos refutar um único principio do anarco-sindicalismo? li e não encontrei uma única refutação. pelo menos uma, num texto tão grande..."

Deve ter lido sem óculos, coitadinho do Sábio. Num comment tão pequeno pode se dizer realmente muito disparate, ora é óbvio que o nosso caro amigo não encontra nenhuma refutação ao anarco-sindicalismo num texto tão grande, mas sim algumas refutações ao anarco-capitalismo, que é algo um "poucadinho" (muito) diferente. Mas percebesse que alguém que leia tantos livros tenha estes lapsos. Todos os grandes sábios o têm, não é verdade?

"Os unicos argumentos provêm de erros semanticos, ou das varias interpretações que as palavras possam ter actualmente, e que não corresponde à sua verdadeira origem e que tocam superficialmente (de raspão) os temas."

Este sábio, é como os sábios, nao poderia deixar de ser como eles. É tão sábio que fala, fala, e até insulta, mas concretiza pouco, e objectiva pouco, para alguém que filosoficamente deveria ser tão objectivo como o objesctivismo de Ayn Rand.
Concretize, ninguém leva a mal, meu velho sábio.

Acusa o texto de tocar nos temas de forma supreficial, mas esquece-se que o comentário que deixa não tem nada de profundo. Chamem-me o Lacan, a psicanálise de Freud ajudariam a compreender este anónimo e a sua patologia, uma patologia de sábio!

"em vez de empreender por um discurso que não acrescenta nada, a não ser a pessoas ignorantes, poderia ter alguma honestidade intelectual, mas como Hoppe afirmou: «logical consistency is not a requirement for an anti-rationalist"

Falam tanto do principio da não-agressão, estes sábios, mas para agredir verbalmente parecem estar prontos.
Mas como eu não sigo esse principio, e até acredito na coerção, permita que lhe diga algumas palavrinhas, Hoppe, é um senhor que prefere a monárquia à democracia, e que diz que a monarquia é um mal menor. Um tipo que opõe a liberdade à democracia, é realmente um senhor com muita autoridade para falar de rationalidade. Anti-racional são os mercados.
O mesmo senhor diz "Liberdade em vez de Democracia", este anormal nem é levado a sério, e chamê-mos outra vez o Lacan, para ver que patologia este senhor poderá ter.

Se calhar se você parasse de ler tanto, meu caro sábio, e se saísse mais à rua para ter contacto com o ar fresco e realidade do mundo poderá o fazer, e o Lacan, aconselha-o. Disfrute das paisagens, dos rios, dos bosques, dos mares e praias enquanto não são privadas. Apanhe ar fresco e tome comprimidos meu velho sábio, você com tanto conhecimento deveria escrever um livro.

Tente usar o principio da não-agressão não só para o que convem, e use o objectivismo nos seus comentários e não só na filosofia. Nós agradecia-mos.

O Aluno.

Tea Party e os seus malucos!

O «anarquismo» bipolar

Enquanto o tema está em voga, gostava de dizer algumas palavras a respeito do bizarramente baptizado libertarianism (em inglês porque o seu significado, na América, difere do significado daquilo a que o resto do mundo chama libertarismo) e do seu filho mimado, o «anarco»-capitalismo (passe o oximoro).

Estes seres desorientados podem ser encontrados na marcha do Tea Party mais próxima, transportando o Atlas Shrugged num braço e cartazes denunciando o Big Government no outro… e já vai sendo tempo que se reconheça a sua retórica lunática pela verborreia bipolar que é.

Bipolar por causa das suas duas pretensões concorrentes: por um lado, pela pretensão de um capitalismo laissez-faire, sem Estado, ou de Estado limitado (algo naturalmente contraditório). E por outro, pela pretensão de que possa haver anarquismo sob o capitalismo, de que a messiânica liberdade possa alcançar-se pela dissolução do Estado sem um processo prévio de socialização dos meios de produção.

Começando pela segunda, é verdade que o Estado é um mecanismo coercivo, e o socialismo faz tradicionalmente uso deste facto quando afirma que o Estado é o mecanismo de legitimação da opressão da classe explorada pela classe opressora. Analisaremos mais à frente as implicações desta constatação quando nos debruçarmos sobre a primeira pretensão que eu enunciei mais acima.

Por outro lado, é evidente que o conflito de mercado é conducente ao estabelecimento, se não de monopólios, pelo menos de grandes grupos económicos; ou por outras palavras, o capitalismo promove (aliás, define-se como) acumulação de capital (nas mãos dos proprietários). Porquê?

Porque é apanágio do capitalismo — a livre troca de bens e serviços — que o receptáculo da riqueza produzida seja o proprietário do capital, e não o trabalhador que produziu essa riqueza. Posto desta forma, torna-se evidente que aquele que possui capital está apto a coleccionar mais, à custa daquele que não o possui. Este sistema é inevitavelmente conducente à desigualdade social e à acumulação do poder económico nas mãos de uma minoria burguesa. O Capital concentra poder económico à custa do Trabalho.

Ora, poder económico equivale de facto a poder político e, como o Miguel expôs e eu tentei clarificar, equivale a poder de coerção — a propriedade privada e o mercado são contendores de poder coercivo. Afinal de contas, a motivação primária do Privado é a maximização do lucro (a função de utilidade do Homo œconomicus) e o modo que a História demonstrou ser mais conducente à acumulação do lucro é a exploração capitalista do trabalhador — uma forma de coerção.

Os empresários assemelham-se portanto menos a benfeitores e mais a mercenários, pois como disse Adam Smith n’A Riqueza das Nações, «Não é da benevolência do talhante, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da sua consideração pelo seu auto-interesse». Um mundo governado por uma oligarquia burguesa é a consequência inexorável do «anarquismo» capitalista, e nesta situação a liberdade económica é a liberdade da classe privilegiada para explorar livremente a grande maioria da população.

Alguns exemplos práticos da exploração que floresce sob a ausência de regulação são o despedimento sem justa causa, a competição sem consideração pelo bem-estar social ou ambiental, os horários à vontade do patrão, a discriminação na hora da contratação, o trabalho forçado e o trabalho infantil, et cætera. E, como a acumulação de capital se traduz no estabelecimento de monopólios, verificar-se-ia igualmente a eliminação do negócio tradicional e regional, a prática de preços à vontade do produtor, a homogeneização da oferta e a desconsideração pela qualidade dos produtos a nível, por exemplo, de saúde ou de carácter educativo.

É este o resultado quando o Capital decide limitar o Estado: a criação de um substituto para o mesmo, composto pela oligarquia burguesa, conducente à exacerbação da exploração capitalista. De forma aparentemente contraditória, mas em verdade inevitável, resulta daqui que o libertarianism, ao aumentar a liberdade da classe burguesa, reduz a liberdade da população em geral.

É esta a primeira das contradições do «anarco»-capitalismo (espero que por esta altura o leitor consiga identificar o porquê das aspas, dado que a mesma ideologia que promete esmagar a liberdade, embora de forma dissimulada, se denomina anarquista e usa fraseologia libertária). A segunda é talvez mais subtil: o facto de o capitalismo ser dependente da existência de um Estado.

Dizia eu mais acima que o Estado é um mecanismo de legitimação da opressão de uma classe por outra. É necessário um Estado para justificar a exploração do proletário pelo burguês e sem Estado a burguesia perde qualquer base em que sustentar a sua actividade.

Isto ocorre porque é necessário um Estado coercivo que garanta ao Capital o «direito» de propriedade. O Estado é uma peça-chave do capitalismo, reestruturado numa superestrutura de repressão, de uso imperialista e de reforço da hegemonia de classe.

Ocorre ainda porque o Estado é detentor de sectores não-rentáveis, mas que são fundamentais à actividade das áreas de lucro máximo. O Estado, ao assegurar a manutenção das áreas pouco lucrativas da economia, garante portanto o suporte do próprio sistema capitalista, que não se vê forçado a fazer investimentos que lhe não sejam lucrativos.

Assim, para os defensores da economia de mercado, o único papel em que o Estado é eliminado é enquanto detentor de meios de produção, retirando proveito dessa eliminação a élite proprietária e o patronato, mas não o resto da população. O ideal capitalista, portanto, é de um sector público em regressão, mas apenas nos meios de produção que se tornaram rentáveis!

Conclui-se, então, que o Estado é instrumento necessário à ditadura da burguesia, sendo esta a segunda contradição irreconciliável do libertarianism.

Por outro lado, vejamos o que nos diz a alternativa socialista: que os meios de produção são um produto comunitário e o capital é um bem social. Deste ponto de vista, o Estado é manifestamente supérfluo, tornando-se um anacronismo, pois não há classe exploradora que exija legitimação. Como diz o próprio Frederick Engels, em Socialismo: Utópico e Científico:

«A interferência estatal nas relações sociais torna-se, num domínio a seguir ao outro, supérflua, e eventualmente morre por si mesma; o governo das pessoas é substituído pela administração das coisas, e pela conduta dos processos de produção. (…) Na proporção em que a anarquia da produção social se desvanece, a autoridade política do Estado morre.»

Então afinal, quem é que quer menos intervenção estatal?