domingo, 26 de dezembro de 2010

São Leais os Carneiros que seguem o Pastor?


Este texto é para todas as estruturas de poder, e para todas a estruturas partidárias desde o BE ao CDS. Um burburinho por parte de alguns que tenho registado no meu partido, Bloco de Esquerda, face a uma posição que aqui tomei enquanto à candidatura de Manuel Alegre. Para responder a futuras e eventuais acusações de deslealdade e outras. Tentando mostrar que a crítica e a diferença de opiniões não são "deslealdades".

Desleal com a mentira e a hipocrisia. Leal com a transparência e a clareza. Não vou com a corrente, penso livre, pela minha própria cabeça, será isto ser desleal?


O pensamento dominante e os seus papagaios e discípulos

É interessante que em todas as estruturas frágeis ou fortes com uma actividade burocrática grande começam a surgir os pensamentos administrativos do funcionarismo dos partidos.
Os funcionários destes normalmente tem medo de se virarem contra o pensamento dominante, porque isso pode lhes custar o emprego, permanecem em silêncio, jogam o jogo.

Os aspirantes a subir na estrutura partidária repetem o que os seus líderes e mestres dizem à letra, com a esperança de algum dia conseguirem um tacho pela boa "lealdade" prestada com o partido.

No meio disto, só resistem as pessoas que ainda têm ideais, originalidade, independência, e acima de tudo que pensam pela sua cabeça antes das estruturas terem uma opinião oficial. Perante os papagaios e os burocratas mais acéfalos estes são os "desleais". Talvez por pensarem e serem críticos. Talvez por porem o dedo na ferida, por denunciarem o que está errado e serem leais com a clareza e a verdade.

O argumento da lealdade além de ser um não-argumento, é um autoritário que não promove uma cultura de tendências plurais e organizadas. Um que deve ser afastado de uma esquerda que quer ser grande e realmente transformadora.

Serei sempre leal com a verdade, clareza, e ideais, o que implica uma deslealdade com o partido em determinadas matérias. Não existem estruturas perfeitas, mas para isso temos de trabalhar e não esquecer de ser realmente críticos e não pseudo-revolucionários.

O que para aí há mais é pseudo-revolucionários acríticos nas coisas em que realmente o devem ser. Alguns que por vezes têm reticências em se chamarem revolucionários por vezes têm uma atitude mais revolucionária do que os que usam esse nome vazio.

Qual será o problema da estrutura dos partidos, terem demasiados aspirantes a funcionários?
Talvez seja esse.

Terem estruturas demasiado burocráticas, fechadas, minadas por gente acrítica?
Talvez seja isso.

Terem hierarquias demasiado rígidas, pouco democráticas e participativas?
Talvez seja isso.

Por terem demasiada gente na estrutura leal com o partido mas desleal com a transparência e a verdade?
Certamente.

Por não conseguir ser leal para com todos, escolhi ser leal para alguns princípios e ideais. Não me vou calar, por não ser aspirante a nada, sem ser aspirante a denunciador da hipocrisia e do autoritarismo. Tenho pena das pessoas que se deixam cegar nas estruturas pelos seus fetiches mais íntimos de algum dia ter isto, ou ser isto, no partido, por simplesmente o querer ser e não por trabalho ou reconhecimento democrático.

Tenho pena das pessoas que fora do partido criticam muito as políticas seguidas e os outros partidos, e que dentro do partido são os promotores da não-crítica e da lealdade com a mentira. Tenho pena da crescente burocratização e afastamento dos dirigentes dos "dirigidos". Tenho pena que o sonho de muitos se torne em desilusão, de muitos.

Não há ninguém mais desleal para alguns, que uma mente livre, crítica e independente.
Tenho pena dos papagaios que se emproam por aí repetindo o que agrada aos seus mestres, evitando pensar. E que se esquecem do sonho e esperança que este partido representa para muitos. Não para subir na vida, mas para a mudar.

Para todos aqueles que trocam ideais pela cegueira, não tenham dúvida,
O meu coração bate do lado esquerdo, e não vai parar, é a esse que sou fiel.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O Alegre que dizia que Louçã era o "Cavaco às avessas".


Dedico este post que vai no seguimento do anterior, a explorar algumas das incoerências da candidatura de Manuel Alegre que infelizmente vai ter muitas consequências danosas para a esquerda quando as eleições terminarem. A ressaca da esquerda vai ser dura.

Manuel Alegre, esse político camaleoneco, que em 2006 dizia de peito aberto que Louçã era "o Cavaco às avessas", em 2011 é apoiado pelo mesmo. Este senhor que fala com muita retórica sobre o Estado Social sempre tirou dividendos à custa do mesmo. A sua candidatura é apoiada por José Sócrates, um dos homens que mais pôs a saque o mesmo Estado Social que Alegre diz defender.

Além de tudo isto, Manuel Alegre é um homem que confrontado com a pergunta que se lhe põe se é a favor ou contra o OE de Estado, acaba por dizer sempre com muito jogo de cintura que este é inevitável.

É infelizmente um candidato que nasceu para morrer na praia, e que além disso expõe bem o estado acomodado e perdido a que a esquerda portuguesa chegou.

Um partido como o Bloco de Esquerda que sempre lutou contra as inevitabilidades e contra as incoerências, vem agora passo a passo a entrar num jogo político com discurso pouco claro e de perpetuação do mesmo. Alguns sectores da esquerda portuguesa acreditam em Manuel Alegre como a esquerda Norte-Americana acreditava em Obama. Acreditam muito, e tem muita fé, mas carecem de substância que sustente as suas crenças e opiniões. Quando estes acordarem, a ressaca vai pesar nos ombros.

O discurso da Esquerda não pode ser um maneatado, acomudado, e hipócrita. A esquerda não se pode esvaziar em pura retórica e jogos de cintura, ou, estratégias partidárias megalómanas. A esquerda tem de falar verdade pelas pessoas certas, um discurso que seja coerente não só nas ideias como na ligação entre ideias e factos. Alegre não representa isso, mas sim os privilégios de uma certa casta de políticos que sempre falou em nome da Esquerda mas que mal sabe o que é trabalhar.

Alegre é uma ilusão da Esquerda, uma má ilusão.

Este candidato, debate após, debate revela e expõe cada vez mais as suas fragilidades.
Acaba de levar uma tareia no debate com Nobre, que faz envergonhar a esquerda que o apoia.

Manuel Alegre que nas últimas presidenciais dizia que Louçã era o Cavaco às avessas, hoje já diz outra coisa. O que dirá Alegre nas próximas presidenciais? Estou curioso. Esta é para vocês adivinharem.

Experimenta também perguntar a Manuel Alegre o que acha deste Orçamento.
E terás a derradeira resposta vergonhosa do suposto candidato da esquerda.

É no mínimo bizarro ver associações que se dizem revolucionárias e pessoas que se dizem anti-capitalistas empenhadas na campanha com coração e alma. Das duas, uma, ou fingem bem, ou ainda acreditam no pai natal.


A hipocrisia reina.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Um Cão como Nós e a Grande Porca da nossa Política.







Todos nós sabemos, e já dizia o Fernando Pessoa, que os poetas são fruto das contradições e das incoerências. De múltiplos sentimentos contrários e de ideias ou ideais que por vezes entram em contradição quando analisada a obra no seu conjunto. Mas é esta dialéctica de emoções e ideias onde nasce o poeta, onde nasce o escritor.

Estas contradições são boas quando se trata de escrita criativa, mas não na política.

Pelo soar das últimas notícias e dos primeiros passos dos debates eleitorais. Enfrentamos candidatos cujas contradições são imensas. Deparamo-nos com um Cavaco que afirma ter sido o padrinho deste Orçamento de Estado, mas no final diz que este é um mau orçamento. Com um Fernando Nobre que é supra tudo, que tanto apoia a causa monárquica, como autarcas do PSD, eurodeputados do B.E, e que faz de tudo para não se clarificar ideologicamente.

De outro lado da barricada temos o suposto maior candidato da Esquerda, que esquizofrénicamente fala em nome do governo e da oposição. Que tanto dá uma no ferro e outra na ferradura. Não obstante disto a lista de comissão de honra do mesmo contem nomes como Francisco Louçã e José Sócrates na mesma. O mais engraçado de tudo é que parece que por parte dos dois partidos que apoiam este candidato, cada um vê nele o que realmente ele não é. Um oportunista que tem um fetiche de ser Presidente de República tal como os outros todos, à custa de tudo e de todos, e até das suas contradições. Além disso a vida de Manuel Alegre não tem sido a mais exemplar, mas sim uma carregada de privilégios dos quais não abdica. Sempre viveu à custa do PS e do Estado português. Não sei como é que mesmo assim alguns da esquerda socialista ainda conseguem fingir tão bem, ou, até mesmo acreditar piamente que este é o candidato ideal. Recordo alguns que no passado recente diziam que não o apoiariam e hoje aparecem empenhados na sua campanha de cara lavada, tristemente alegre.

O PS tenta a todo o custo dizer que Alegre é o seu candidato, timidamente tenta ocultar aqui e ali o apoio do BE.
Por sua vez o BE, no seu portal, esquerda.net, censura aqui e ali os apoios de José Sócrates e os seus amigos. Como podemos notar numa última noticia deste portal que ao divulgar nomes de pessoas relevantes da cultura e política portuguesa que apoiam a candidatura de Manuel Alegre, excluem desses nomes aqueles que mais incomodam aos seus militantes, como o de José Sócrates entre outros.

Era bom que o BE deixasse de maquilhagens no que toca à candidatura de Manuel Alegre e que assuma transparentemente e sem tabús que está a apoiar a mesma candidatura de José Sócrates e do Governo. E além disso uma candidatura que subtilmente diz que este OE é inevitável.

Estas eleições presidenciais são marcadas por uma incoerência e de um enorme desprezo do povo português face à política. Os cidadãos não percebem este jogo de contradições e estão fartos deste jugo que só serve interesses que não os seus.

Se se apoia um candidato incoerente e contraditório não podemos querer afastar todos os males que este possa acarretar. Mas se realmente nos comprometemos e acreditamos numa candidatura esta tem de ser levada sem tabús e censuras.

Os cidadãos não podem perceber como um partido que faz a oposição mais cerrada ao governo poderá apoiar o candidato deste. Não percebem como um P.R que se diz padrinho da criança orgulhosamente, no outro dia diz não gostar dela. Não percebem um Nobre que é tudo e não é nada, que é monárquico mas candidata-se à presidência. Muito menos ouvem Defensor Moura e aquela patetada.

Cavaco esse político que mais anos teve no poder, continua a pairar na política como nada tivesse haver com ela. Se há alguém responsável pelo estado do país e da política, é Cavaco, que depois do escândalo do BPN continua aparecer como pessoa idónea e com aquele ar sacramental que já nos tem habituado de anjo retardado, assexuado e moralista.

Nos rostos, nas palavras, nos gestos, que se iluminam sobre as luzes das câmaras e dos estúdios, tudo aquilo soa a plástico. Soa a falso. Soa a espectáculo. Soa a mentira. Soa a retórica. Soa a uma política que foi descaracterizada, e vendida ao marketing e a falsos moralistas.

No final de tudo, todos parecem defender o mesmo tentando demonstrar o contrário. Todos parecem poetas, cheios de contradições. Mas isto infelizmente não é poesia, não é "Um cão como nós", mas sim "A grande porca da nossa política".


A verdade é sempre revolucionária

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"Há um povo que insiste em resistir, que não desiste de lutar pela sua liberdade, e que clama por justiça."

Discurso de Carlos Almeida, membro da direcção do MPPM, na sessão evocativa do Dia Internacional de Solidariedade com o Povo da Palestina, a 29 de Novembro, na Casa do Alentejo, Lisboa
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Caros amigos,

No dia 2 de Dezembro de 1977, a Assembleia Geral das Nações Unidas, reunida na sua trigésima segunda sessão, aprovava a resolução nº 32/40. Uma mais entre as centenas que antes e depois desse momento a ONU haveria de aprovar a propósito da questão palestina. Vinte e nove países votaram na ocasião contra esta resolução, entre eles, claro, Israel e os EUA, as ditaduras da Nicarágua, das Honduras, da Guatemala e da República Dominicana, mas também a Grã Bretanha, a Austrália, o Canadá, a Bélgica, a Itália e a Noruega. Na segunda parte dessa resolução, reconhecendo-se a grande necessidade de divulgar a causa nacional palestina e os direitos inalienáveis do seu povo, assim como os esforços levados a cabo pelas Nações Unidas com vista à sua realização, estabelecia-se a observância anual, no dia 29 de Novembro, do Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino. O dia em que aquela mesma Assembleia Geral, trinta anos antes, aprovara a resolução nº 181, estabelecendo a partilha da Palestina em dois estados, passaria, de ora em diante, a marcar a agenda internacional como uma interpelação à consciência mundial sobre o drama histórico do povo palestino e as responsabilidades que acerca dele pesam sobre os governos e povos do mundo.

Na primeira parte daquela resolução afirmava-se, sem ambiguidades, que uma paz duradoura no Médio Oriente era indissociável do estabelecimento de uma solução justa para a questão palestina, e que esta só podia alcançar-se na base da realização dos direitos inalienáveis do povo palestino, desde logo o direito à independência e à soberania nacional, assim como o direito ao regresso dos refugiados. Reconhecia-se, assim, que neste conflito havia um agressor e uma vítima, um ocupante e um ocupado, um opressor e um oprimido, e que nestas circunstâncias, não podia haver espaço para a neutralidade ou a indiferença. A solidariedade era um dever ético e político que exigia de todos um compromisso firme.

No dia 2 de Dezembro de 1977, era primeiro-ministro em Israel Menahem Begin, outrora chefe da milícia Irgun, responsável pelo massacre de Deir Yassin, e que o próprio Ben Gourion comparava a Hitler. O seu partido, o Herut, ostentava como hino um poema de Jabotinsky, o pai da direita mais racista e xenófoba de Israel, em que se cantava, “Duas margens tem o rio Jordão, uma é nossa, e a outra também”. Em 1977, dez anos após a guerra que ditou a ocupação da margem ocidental, de Jerusalém Oriental, da faixa de Gaza, e dos montes Golã, a colonização destes territórios ensaiava os primeiros passos. Só na Cisjordânia, excluindo Jerusalém, existiam então 31 colonatos, onde viviam cerca de 4 400 pessoas. Três anos antes, em Outubro de 1974, a Assembleia Geral da ONU reconhecera a OLP como um movimento de libertação nacional, representante única do povo palestino. Yasser Arafat apresentara-se perante essa Assembleia, com um ramo de oliveira numa mão e um revólver na outra, e apelara à comunidade internacional para que actuasse de modo a que o ramo de oliveira pudesse manter-se erguido. Em 1977, as ondas de choque do discurso de Anwar Sadat no Knesset abalavam o mundo árabe e fragilizavam a causa palestina. Dois anos após, no Portugal que Abril libertara, realizava-se em Lisboa a Conferência Mundial de Solidariedade com a Nação Árabe e a sua causa central, a questão palestina. Era a primeira grande reunião de solidariedade com o povo da Palestina num país da Europa Ocidental. Nessa Lisboa onde era forte, ainda, o perfume dos cravos, Arafat falou de um povo desapossado da sua terra, que não tinha lugar nem para enterrar os seus mortos, mas que com uma incomparável dignidade, resistia à ocupação e teimava na esperança de uma vitória que tinha que chegar um dia. Na despedida, em nome desse povo, Arafat agradeceu aos homens e mulheres, aos montes, às colinas e às árvores deste país, a solidariedade que aquela importante conferência testemunhara, pois ela era, nas suas próprias palavras, “o instrumento para a vitória de todos os povos amantes da liberdade, da justiça e da paz”.

Passaram trinta e três anos depois da aprovação daquela resolução que instituiu o Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino. Em Telavive mora, hoje, o governo da mais reaccionária e racista direita israelita. Nos territórios ocupados, Jerusalém Oriental incluído, segundo os próprios dados de Isarel, existem perto de duas centenas de colonatos onde vivem cerca de meio milhão de pessoas. Aqui não se incluem nem as chamadas colónias ilegais, nem os assentamentos de colonos no quarteirão árabe da cidade velha de Jerusalém, nem nos seus bairros de Silwan, Sheik Jarrah, ou Abu Dis. Mais de uma trintena de anos volvidos, o rasto de morte e destruição atingiu o paroxismo. Para só falar dos últimos dez anos, foram mortos 7 395 palestinos, dos quais 1296 crianças e 582 mulheres, e feridas 50 896. 3 634 pessoas sofreram ferimentos que os incapacitam para toda a vida. 838 pessoas foram executadas em assassinatos selectivos. Foram destruídas 10 414 casas. Foram arrancadas 1 191 787 árvores. Um muro segregacionista que o Tribunal Internacional de Justiça condenou, e que na sua extensão máxima terá mais de 700 km, dilacera agora a paisagem da Margem Ocidental, destruindo tudo à passagem, separando os pais dos seus filhos, os camponeses das suas terras, as crianças das suas escolas. Para cima de seiscentos postos de controle do exército israelita infernizam, diariamente, a vida do povo palestino. Na faixa de Gaza, cerca de um milhão e meio de pessoas vive submetido ao mais infame e criminoso bloqueio perante a quase generalizada indiferença da comunidade internacional, e dependente da ajuda humanitária das Nações Unidas e da coragem dos movimentos de solidariedade que insistem em desafiar essa muralha de silêncios e cumplicidades. Trinta anos volvidos, mais de quatro milhões de pessoas espalhadas um pouco por todo o mundo continuam a embalar o sonho de um dia verem reconhecida, de facto e não só de direito, a sua condição de refugiados, expulsos das suas casas, desapossados das suas terras. Sessenta e dois anos volvidos depois da Nakba, trinta e três anos depois da declaração do Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino, há um povo que insiste em resistir, que não desiste de lutar pela sua liberdade, e que clama por justiça.

Além de um imperativo ético, e de uma necessidade política, a solidariedade com o povo palestino é, nos dias que correm, uma urgência inadiável. Porque, a cada hora que passa, por cada dia que se cumpre, a solução política consagrada na resolução nº 181 da Assembleia Geral das Nações Unidas, com a criação de um Estado da Palestina, livre, viável e soberano, fica mais comprometida e ameaçada. Os sucessivos governos de Israel sabem-no, sempre o souberam, e com o apoio activo, material e político, dos EUA, das grandes potências ocidentais e de poderosos interesses económicos, fizeram da política de colonatos uma verdadeira corrida contra o tempo. Recorde-se, a este propósito, o compromisso assumido por George Bush junto de Ariel Sharon, segundo o qual o governo dos EUA reconhecia as alterações de facto ocorridas no terreno e que tal devia reflectir-se no processo de negociação de uma solução final para o conflito. Ora, nos dias de hoje, mais de metade da margem ocidental do rio Jordão, ocupada desde 1967, e parte do futuro Estado da Palestina, é controlada por Israel tanto por via da área dos colonatos, como pelas implicações da construção do muro do apartheid, a que haverá que acrescentar a rede viária e demais infra-estruturas, organizadas de forma a garantir a ocupação do território.

Em Jerusalém Oriental, em particular, este processo reveste-se, nesta altura, de particular importância e violência. Desde logo, estão em curso vários processos tendentes a desalojar a população árabe dos bairros árabes de Jerusalém Oriental, como Silwan e Sheik Jarrah. As mesmo tempo, prossegue em ritmo acelerado o processo de alargamento dos colonatos em redor de Jerusalém – Ma'ale Adumim conta já hoje mais de 35 mil pessoas – com um duplo objectivo: alterar o equilíbrio demográfico na região, favorecendo os planos de anexação de Jerusalém Oriental, mas, ao mesmo tempo, cortar a margem ocidental em duas metades, procurando, na prática, tornar irreversível a descontinuidade geográfica do território palestino. A este propósito, convém recordar, aliás, que a construção de colonatos em Jerusalém Oriental nunca esteve incluída no tão falado congelamento da colonização que expirou em Setembro ultimo.

Em boa verdade, o que está em curso, o que este governo de Israel, acelerando-o, se limita a prosseguir, é uma política meticulosamente planeada, e persistentemente concretizada de ocupação, anexação e exploração do território palestino, e de aniquilação das condições materiais de existência nacional do povo palestino. Além de iníquo e criminosa, essa política é, à luz do direito internacional, ilegal, e quem a apoia, financia e concretiza é, por isso, cúmplice de uma ilegalidade, cúmplice de um crime. Cabe aqui dizer, a este propósito, que uma empresa portuguesa, de capitais públicos, a EPAL, tem hoje graves responsabilidades que importa denunciar por via do acordo de cooperação que mantém com a MEKOROT, a empresa de águas de Israel, que desempenha uma função estratégica na exploração dos recursos hídricos, em Israel e nos territórios ocupados.

Tal política é acompanhada pela segregação e repressão da população árabe, tanto nos territórios ocupados, como dentro do próprio estado de Israel. Aquele regime que tanto se gaba de ser a “única democracia do Médio Oriente” é, bem ao contrário, um regime de apartheid, com cidadãos de primeira e de segunda. A lei de cidadania recentemente aprovada no Knesset, impondo à população árabe um juramento de fidelidade a um estado judaico, as perseguições contra os deputados árabes do Parlamento de Israel que denunciam os crimes da ocupação, assim como as condicionantes à actividade das organizações não governamentais e de direitos humanos que, em Israel, desenvolvem uma importante e valiosa acção de informação, esclarecimento e solidariedade com a causa nacional palestina, são bem exemplo da natureza segregacionista e anti-democrática da política do estado de Israel.

E, mesmo assim, o governo xenófobo de extrema-direita logrou alcançar a adesão do estado de Israel à OCDE. Tal só é possível, em boa verdade, porque Israel goza, no plano internacional, de um estatuto de total impunidade, protegida que está pelos EUA e pelas grandes potências ocidentais. Teria bastado que apenas um dos estados dessa organização tivesse, justamente, chamado a atenção para a violação grosseira e sistemática, por parte de Israel, dos valores da paz, da democracia, da liberdade, dos direitos humanos mais elementares para que tal se não concretizasse. E, no entanto, nem um único o fez. O governo português não só aceitou sem pestanejar, sem conflitos de consciência, a adesão de Israel à OCDE como, mais recentemente, aceitou participar numa reunião desse organismo dedicada ao turismo e promovida por Israel em Jerusalém, quando outros países, como a Grã-Bretanha, boicotaram esse evento.

Ao assinalar a passagem do Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino temos presente que esta limite atravessa hoje um momento limite, crítico e decisivo, quanto às condições para a concretização da resolução nº 181 da Assembleia Geral das Nações Unidas e a concretização, por essa via, dos direitos inalienáveis do povo palestino. Não esquecemos, ademais, que uma divisão grave e penosa continuar a marcar o movimento de resistência nacional palestina, expondo a sua luta a todo o tipo de ingerências e pressões externas.

Nestas condições a solidariedade é, mais do que nunca, necessária, Uma solidariedade que congregue e aglutine esforços e vontades e que dinamize iniciativas. Uma solidariedade internacional que reafirme o primado do direito e da legalidade internacional. Uma solidariedade comprometida, sem preconceitos, sem falsas neutralidades. Uma solidariedade que, respeitando a independência do processo político palestino, apele sem cessar à unidade das forças da resistência nacional palestina em torno das suas reivindicações centrais: o fim da ocupação, a retirada de Israel dos territórios ocupados, a constituição de um Estado Palestino livre, soberano viável, com Jerusalém Leste como capital, e uma solução justa para a situação dos refugiados palestinos, que observe as resoluções pertinentes da ONU.

Senhor Embaixador, na sua qualidade de representante do povo palestino, em Portugal, aceite esta nossa expressão da solidariedade do povo português que um dia recebeu, de braços abertos, o Presidente Arafat. Aqui lhe asseguramos o compromisso do MPPM com a luta do seu povo e o nosso empenho em contribuir, em Portugal, para o alargamento da solidariedade com a luta do povo palestino.

Lisboa, 29 de Novembro de 2010

Por Carlos Almeida é investigador cientifico e membro da Direcção do MPPM.
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