Nos últimos anos da década de 1920, um ambicioso cientista com poucos escrúpulos ascendia à direcção da Academia de Ciências Agrícolas da União Soviética. O seu nome era Trofim Lysenko, e lograra convencer Stalin de que toda a ciência genética estava errada. A genética foi estigmatizada como «ciência burguesa» e os mais importantes geneticistas (incluindo Nikolai Vavilov) foram presos, executados ou enviados para campos de trabalhos forçados. Em seu lugar, Lysenko e o mecanismo de Estado propagandearam uma «ciência revolucionária» baseada no princípio antidarwinista e antimendeliano da hereditariedade das características adquiridas, despoletando um conjunto de reformas políticas, sociais e agrícolas em larga escala. Como resultado, milhares de milhar de pessoas morreram de fome, devido às reformas agrícolas catastróficas numa agricultura já enfraquecida pela colectivização apressada (e a biologia soviética sofreu um atraso de décadas).
A história de Lysenko, o charlatão que se tornou responsável pela morte de grande parte da população russa, é um exemplo claro das consequências de permitir a manipulação e a distorção do processo científico a fim de atingir uma conclusão predeterminada, ditada por um preconceito ideológico.
A manipulação ideológica da ciência é um problema que não conhece cor política. Seja o mito marxista do socialismo científico ou o darwinismo social da direita neoliberal, ideólogos de ambos os lados da paisagem política asseguram-nos de que os dados da ciência apoiam as suas ideias. Mas a ciência, análise objectiva da realidade, é cega à política. A própria ideia lysenkoista de «ciência burguesa» ou «ciência revolucionária» deveria fazer um arrepio percorrer a espinha do leitor. E contudo é uma ideia que permanece viva, especialmente entre as ciências sociais e humanas.
Não significa isto, naturalmente, que a ciência não deva iluminar o processo de decisão política. Significa, isso sim, que não podemos, por um lado, extrapolar da ciência mais do que aquilo que ela nos diz (falácia naturalística, conforme cometida pelos darwinistas sociais, por exemplo) e, por outro, escolher a dedo que áreas científicas nos agradam, rejeitando as outras (negacionismo, conforme cometido pelos criacionistas e pelos negacionistas do aquecimento global, por exemplo). Em vez disso, devemos aceitar o corpus científico como um todo e deixar este conhecimento guiar as nossas decisões. Como diz o biólogo Richard Dawkins:
«A ciência não tem métodos para decidir o que é ético. Isso é um assunto para os indivíduos e para a sociedade. Mas pode clarificar as questões que estão a ser feitas e esclarecer mal-entendidos. [Por exemplo,] a ciência não nos pode dizer se o aborto é errado, mas pode apontar que o contínuo (embriológico) que liga um feto não-senciente a um adulto senciente é análogo ao contínuo (evolutivo) que liga os humanos às outras espécies (…), [pelo que] talvez seja inconsistente pensar que o aborto é assassínio mas que matar chimpanzés não o é. (…) A ciência não nos pode dizer se é correcto matar “Mary” para salvar a uma gémea siamesa “Jodie”, mas pode dizer que uma placenta é um clone verdadeiro do bebé que alimenta. (…)» (in A Devil’s Chaplain).
Um dos temas mais perturbados por esta tendência lysenkoista de subordinar a fraseologia científica à ideologia política é a questão do género e da identidade sexual. Mais uma vez, os factos científicos são manipulados, ignorados, inventados, distorcidos, omitidos e seleccionados da forma mais inventiva e, mais uma vez, nenhum dos lados do espectro político é inocente.
A esquerda, por exemplo, é culpada de ignorar a influência biológica nos comportamentos associados ao género. Esta questão é parte de um leitmotif mais abrangente da esquerda: a negação do substrato biológico como influência do comportamento humano. Ninguém duvida que os genes podem dar forma à anatomia. Contudo, a ideia de que também podem dar forma ao comportamento é oposta ao conhecimento convencional que dominou a psicologia e todas as outras ciências sociais no século XX — ciências sociais essas que têm sido vastamente influenciadas pelo pensamento esquerdista. Assim, a academia esquerdista tem tendência a acusar tudo aquilo que entende (erradamente) como «determinismo genético» — um conceito mal definido e, em grande medida, inventado, que não é defendido por nenhum cientista sério — enquanto o substitui, bizarramente, por outras formas diversas de determinismo para ocupar o seu lugar: cultural, linguístico, parental-freudiano, socioeconómico, político, paritário, de estímulo/resposta, entre outros. Assim, numa diversão que durou quase um século, os cientistas sociais lograram persuadir pensadores de muitos tipos que a causalidade biológica era determinismo enquanto que a causalidade ambiental preservava o livre arbítrio.
Desta forma, sociólogos e psicólogos behaviouristas, marxistas e freudianos (por exemplo) tapam os ouvidos à evidência de que a biologia influencia o comportamento associado ao género. «Os rapazes só brincam com carros, e as meninas com bonecas, porque a sociedade assim o determina!», asseguram, apesar da evidência experimental em contrário (como os estudos em que macacos preferem brincar com carros ou bonecas, dependendo de serem machos ou fêmeas, embora não haja pressão social nesse sentido dentro das suas «sociedades»).
Nos anos 1960, nos Estados Unidos, uma circuncisão mal-sucedida deixou um rapaz com o pénis gravemente danificado, que o médico decidiu amputar. Foi decidido tornar o bebé numa rapariga por castração, cirurgia e tratamento hormonal. John tornou-se Joan: vestia vestidos e jogava com bonecas. Em 1973, John Money, um psicólogo freudiano, afirmou publicamente que Joan era uma adolescente bem ajustada, pondo um fim à especulação: os comportamentos associados ao género eram, proclamou Money, constructos sociais. Só em 1977 é que alguém verificou os factos. Quando Milton Diamond e Keith Sigmundson procuraram Joan, encontraram um homem, alegremente casado com uma mulher. A sua história era muito diferente da contada por Money: tinha-se sentido profundamente descontente enquanto criança, sempre quisera usar calças, misturar-se com os rapazes e urinar de pé. Terminou o tratamento hormonal, mudou o seu nome de novo para John e casou-se aos 25 anos.
A conclusão é que os rapazes e as raparigas têm interesses sistematicamente diferentes desde o próprio começo do comportamento autónomo. Convergentemente, evidência cromossómica (o chamado imprinting genético) sugere que o cérebro é um órgão com um género inato.
Que a cultura influencia os comportamentos associados ao género, não há dúvida. A questão não é se a cultura terá algum papel a tomar, porque ninguém alguma vez negou que o faça. Mas que a biologia não tem qualquer influência nos mesmos é uma falsidade igualmente grande. O debate nature vs nurture (natureza vs educação) baseia-se sobre uma falsa dicotomia, e a evidência combinada da biologia, da psicologia e da sociologia converge agora para a ideia de que tanto o substrato biológico como o ambiente social desempenham o seu papel na determinação do comportamento.
Temo ser mal interpretado na minha exposição: quase consigo ouvir teóricos queer a acusarem-me de promover uma dicotomia inexistente entre «rapaz» e «rapariga», lembrando-me de que não há uma relação causal entre sexo e identidade de género. Porém, tais hipotéticas críticas são desnecessárias e falham o ponto, na medida em que eu concordo que a distinção entre as identidades de género é artificial e arbitrária — é uma distinção abrupta entre dois géneros conformes aos preconceitos de uma sociedade heteronormativa e essencialista.
Como disse Lineu, o biólogo que sistematizou a nomenclatura científica binominal para as espécies vivas, natura non facit saltum («a natureza não faz saltos»): a biologia funciona em espectros contínuos e não em pretos e brancos. É de esperar que a distribuição dos comportamentos associados ao género seja, estatisticamente, gaussiana, caindo os comportamentos numa curva em forma de sino. As proposições da biologia são, pela natureza desta ciência, aproximações e generalizações: o comportamento heteronormativo corresponde à média da curva (o ponto de ordenada mais elevada), mas é de esperar todo o contínuo de posições associadas aos restantes pontos do domínio da função.
Portanto, quando dizemos que «os rapazes e as raparigas têm interesses sistematicamente diferentes», referimo-nos a casos-tipo e não se exclui (pelo contrário, é de esperar) que existam indivíduos com comportamento dissociado daquele identificado para a média da população de igual sexo anatómico.
Em adição, é importante não cair na já mencionada falácia naturalística: estas constatações não significam que comportamentos associados ao género oposto, ou mais genericamente não-heteronormativos, devem ser desencorajados, ou punidos, ou que são antinaturais. Tratar os comportamentos não-heteronormativos como anómalos é contrário a uma correcta interpretação estatística dos dados científicos.
As hipotéticas críticas segundo as quais a influência biológica no comportamento associado ao género é contrária à teoria queer são, portanto, infundadas.
Mas dizia eu, anteriormente, que o lysenkoismo é um pecado cometido tanto à esquerda como à direita. Nenhum dos lados do espectro político é inocente. Se, por um lado, a esquerda na qual me integro ignora a influência do condicionamento genético, por outro lado, a direita conservadora é profícua em neuroses sexuais, impondo normas de vida que distinguem as pessoas em géneros polarizados (masculino e feminino) com papéis naturais distintos e cumpridos através de relações sexuais e maritais heterossexuais.
Os conservadores caem, portanto, no erro oposto: procuram moralizar o comportamento que vêem como «natural», associando comportamentos não-heteronormativos a piáculos antinaturais que devem ser reprimidos. Por esta altura, o leitor identificará provavelmente a falácia naturalística inerente a este pensamento.
Mas a intolerância conservadora em relação ao comportamento não-heteronormativo vai frequentemente mais além desta abordagem, procurando caracterizar tais comportamentos como «doenças que podem ser tratadas» ou como «escolhas».
«Devemos ter cuidado em aceitar a afirmação de que algumas pessoas ‘nascem para ser gays’, não apenas por ser falsa, mas porque providencia apoio às organizações de direitos dos homossexuais», escreveu a conservadora Lady Young no Daily Telegraph a 29 de Julho de 1998.
Contrariamente, a evidência científica aponta para a conclusão de que a homossexualidade é uma propensão inata, biológica, em vez de ser consequência de pressões culturais ou de escolha consciente. Não há qualquer sombra de dúvida de que a homossexualidade é altamente hereditária. Num estudo, por exemplo, entre cinquenta e quatro homens gays que eram gémeos falsos, doze tinham gémeos que também eram gays; e entre cinquenta e seis homens gays que eram gémeos idênticos, vinte e nove tinham gémeos que também eram gays. Dado que os gémeos partilham do mesmo ambiente, quer sejam falsos, quer sejam idênticos, tais resultados implicam que um ou mais genes são responsáveis por cerca de metade da tendência para um homem ser gay. Uma dúzia de outros estudos chegou à mesma conclusão.
Qual é, então, a explicação genética da homossexualidade? Este é um tema complexo que não está perto de chegar a uma resposta definitiva; porém, parece haver dois indícios que explicam satisfatoriamente a homossexualidade no caso de homens (pessoas com sexo biológico masculino, i.e., com um cromossoma Y funcional). As explicações para o lesbianismo não são claras, mas a assumpção razoável é que são igualmente genéticas (embora não pareçam ser determinadas pelos mesmos genes que actuam no caso da homossexualidade em homens).
A primeira explicação para a homossexualidade em homens parte de um estudo de Dean Hamer, que entrevistou 110 famílias com membros gays, tendo notado que a homossexualidade em homens corre pela linha feminina. Isto sugere que o gene para a homossexualidade jaz no cromossoma X (o único conjunto de genes que um homem herda exclusivamente da sua mãe). Comparações de marcadores genéticos apontam especificamente para a região Xq28 (homens gays partilham a mesma versão desta região 75 % das vezes, o que estatisticamente exclui a possibilidade de coincidência com um intervalo de confiança CI = 99 %).
A ideia de um alelo (versão de um gene) que determine a homossexualidade parece bizarra, porque tal alelo seria rapidamente eliminado pela selecção natural (esta mesma razão exclui, a propósito, explicações adaptacionistas para a homossexualidade). Contudo, o biólogo evolutivo Robert Trivers sugeriu uma justificação baseado no estudo de Dean Hamer: um cromossoma X passa o dobro do tempo em mulheres do que em homens (as mulheres têm genótipo XX, os homens XY). Assim, um gene sexualmente antagonístico (i.e., que tem um efeito diferente dependendo de estar num homem ou numa mulher) que beneficie a fertilidade feminina (aumentando as hipóteses de os seus portadores se reproduzirem se forem mulheres) sobrevive, mesmo que tenha um efeito deletério duplamente grande na fertilidade masculina.
A segunda explicação para a homossexualidade parte da constatação, cada vez mais clara, de que a orientação sexual está correlacionada com a ordem de nascimento: um homem com irmãos mais velhos tem maior tendência para ser gay (cada irmão mais velho parece aumentar a probabilidade em um terço). Este efeito foi verificado na Grã-Bretanha, na Holanda, no Canada e nos EUA, em muitas amostras populacionais diversas.
A explicação freudiana para este efeito (que a dinâmica de crescer numa família com irmãos mais velhos predispõe para a homossexualidade) está provavelmente errada. A resposta jaz uma vez mais no antagonismo sexual genético.
Não há efeito análogo para lésbicas, que estão distribuídas aleatoriamente dentro das suas famílias. Em adição, o número de irmãs mais velhas é irrelevante na previsão de homossexualidade masculina. A melhor explicação diz respeito a um conjunto de três genes activos no cromossoma Y (aos quais chamaremos genes H-Y) que sintetizam o «antigénio menor de histocompatibilidade H-Y». Este composto sintetizado pelos genes H-Y é semelhante (mas não igual) à hormona anti-Mulleriana, uma substância vital à masculinização física dos genitais.
Um antigénio (como o composto sintetizado pelos genes H-Y) é um composto que, quando introduzido no corpo de outra pessoa, provoca uma reacção do sistema imunitário. Por exemplo, muitas bactérias patogénicas têm antigénios, pelo que ao serem introduzidas no nosso corpo, o nosso sistema imunitário reage contra elas. No caso dos genes H-Y, a síntese do composto por parte do bebé provoca uma reacção do sistema imunitário da mãe durante a gravidez. O sistema imunitário da mãe procura combater este composto.
Ora, da mesma forma que após uma infecção por parte de determinada bactéria patogénica ficamos imunizados contra ela (i.e., o sistema imunitário «aprendeu» a reagir contra os antigénios bacterianos), assim acontece nas sucessivas gravidezes masculinas. O sistema imunitário da mãe «aprende», nas sucessivas gravidezes, a reagir contra os antigénios produzidos pelos genes H-Y.
Desta forma, um ventre que já alojou bebés masculinos está imunizado contra o antigénio produzido pelos genes H-Y do bebé e impede que este actue sobre o mesmo. O efeito da ausência deste antigénio no bebé parece ser a maior tendência para a homossexualidade. Numa experiência em que ratos de laboratório bebés foram imunizados contra os antigénios H-Y, eles cresceram incapazes de se reproduzirem.
Estes são os dados experimentais, empíricos e verificáveis que a ciência nos fornece. São filtrados pelo processo de revisão paritária, porque nas revistas científicas os editores procuram revisores que critiquem os artigos a fim de assegurar a sua validade. Estas são as formas encontradas pela ciência para promover a objectividade das suas conclusões. A ciência pode dar, portanto, grandes contributos na resolução dos nossos problemas sociais, ao ajudar-nos a basear as nossas políticas e julgamentos na realidade.
Os ideólogos, por contraste, preferem inventar as leis da natureza. Quando ideólogos ditam a ciência, ficam emaranhados nas suas próprias mentiras; a sociedade, tendo abandonado o método científico, perde o seu referencial empírico, e a verdade torna-se relativa.
Tal politização lysenkoista da ciência, tanto da esquerda como da direita, tenderá a crescer à medida que a biologia afecta cada vez mais as nossas vidas — desvendando os segredos dos nossos genes e do nosso cérebro, dando novas formas às nossas origens e à nossa natureza, adicionando novas dimensões à nossa compreensão do comportamento social.
A lição crucial a tirar da história de Lysenko é o perigo de propagar ideologias políticas sob a guisa de ciência.