terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Wake-up Calls

No espírito de bom gosto que marca toda a linha política de Sarah Palin, foi publicado no seu website um cartaz de um mapa dos EUA com alvos representando candidatos Democratas selectos.


De forma completamente inesperada, um dos «alvos», a Representante Gabrielle Giffords (aparentemente, porque apoiava a reforma do sistema de saúde), Democrata do Arizona, foi atacada a tiro por um assassino com uma arma automática. No tiroteio, catorze pessoas ficaram feridas e seis pessoas jazem mortas, incluindo uma menina de 9 anos.

O assassino, Jared Lee Loughner, tem ligações ao grupo nazi American Renaissance e tinha o Mein Kampf e o We the Living (de Ayn Rand) entre os seus livros preferidos (bem como o Manifesto Comunista, como a Fox News não para de nos recordar).

A tentativa de assassinato ocorre num estado onde o discurso político se transformou numa verborreia inclemente de retórica eliminacionista, em que qualquer pessoa à esquerda da direita republicana é classificada como um traidor e inimigo do Estado. A situação política nos EUA chegou a uma situação em que a atmosfera tóxica produzida pela direita republicana e libertária polui o discurso com ódio e a retórica da violência.

A CNN diz que «isto pode ser uma wake-up call». Isto? Os membros do Tea Party levarem armas para as manifestações não foi? A retórica assassina e os apelos repetidos à violência por parte dos glenn becks, rush limbaughs, michael savages e sarah palins não foi? O culto das armas da NRA não foi?

Esta imagem do Pina County Republican Website não foi?


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

"Também tu podes ser o avô de Portugal" por Cavaco Silva


















[Atenção: Este post tem o propósito de ajudar o leitor a encontrar o seu avô político interior.]

Muito de mal se tem apontado sobre o Presidente Cavaco Silva e as suas decisões políticas. Chega! Afinal, também temos de evidenciar o lado positivo do Presidente.

Cavaco Silva é um enigma, um quebra-cabeças e uma das personalidades mais complexas da actualidade portuguesa. Para compreender todas as suas decisões políticas, temos de estar cientes de uma das brilhantes características do seu discurso: o didatismo. Tudo o que Cavaco diz e faz é uma lição de vida, só não vê e aprende quem não quer.

Com a devida atenção, podemos verificar que o percurso de vida do actual Presidente da República Portuguesa, em conjunto com todas as suas medidas, nos dão tópicos essenciais para a nossa vida. Talvez, algum dia, alguém os aproveite para fazer um livro de Auto-Ajuda. Cavaco é um autêntico camaleão político: consegue modificar a opinião pública e reforçar a convicção dos seus apoiantes com três ou quatro medidas. Fez uma passagem de podre da política a herói pacifista, através de uma observação minuciosa do português comum.

Cavaco Silva viu aquilo que mais faltava ao povo português e deu-lhe. A figura do avô conservador, mas preocupado, o avô pacifista e que tenta de tudo para nos dar o melhor: o eterno generoso. Com Cavaco, aquela figura geralmente perdida na infância é ressuscitada.
Talvez esta ideia lhe tivesse surgido enquanto assistia ao nascimento do seu primeiro neto. Geralmente, é entre estas banalidades que surgem as ideias dos génios.

Para os menos atentos, colocarei aqui alguns dos seus sagrados ensinamentos, com base em medidas e promulgações/vetações polémicas e relativamente recentes:

1) Promulgue a maioria dos diplomas, vete o menor número destes. O exemplo cavaquista foi fenomenal neste sentido: A 28 de Setembro de 2010 atingiu os 2.000 diplomas promulgados e a 6 de Janeiro de 2011 perfez os 15 diplomas vetados.

2) Escolha, minuciosamente, os diplomas a serem vetados. Nunca promulgue um diploma que possa criar questões ou dúvidas quanto à linha política do Presidente. Nunca vete um diploma que possa trazer benefícios financeiros a si ou a uma indústria financeira ou que possa denegrir a sua imagem de generosidade.

3) Nunca se esqueça: é o avô de todos e tem de manter uma imagem agradável para a maioria absoluta dos portugueses, de forma a conseguir apoiantes suficientes para um segundo mandato.

4) Escolha um discurso adequado para apoiar as suas promulgações ou vetações mais polémicas. Nunca contradiga a sua linha de pensamento. Conforme convenha à imagem da sua linha política, revele um grande conflito moral, de quem não pode fazer nada em contrário, e/ou crie um motivo hipoteticamente forte para tomar uma determinada decisão ao promulgar uma lei que não defende. No caso de ser necessária a vetação, demonstre que consultou especialistas na matéria (mesmo que não tenha consultado especialistas de todas as opiniões) e/ou vete por necessitar de revisão.

5) Vá dando "rebuçados" liberais, enquanto tira outros mais pequenos. Ninguém lhe pode acusar de não ter feito um esforço.

6) Mostre-se sensibilizado com o Estado Social, compreendendo o problema das pessoas, mesmo que tenha tomado medidas que piorem a sua situação. ( Tenha especial atenção à visibilidade dos discursos feitos no ano novo ou em épocas mais simbólicas. Exemplarmente: http://www.youtube.com/watch?v=BEO40SZCWRs )
Repita palavras como direitos e igualdade.

7) Evidencie a sua impotência quanto às decisões que foram tomadas. Faça um discurso que leve o povo a concluir que a pressão social realizada sobre o Presidente da República impede que este vete os diplomas e que o seu poder é praticamente nulo junto dos demais orgãos governativos. A representação do País é o seu principal papel. Mostre que fez um esforço claro para não tomar a decisão que, com efeito, tomou..

8) Nunca enfatize demais a tentativa de mudança antes da tomada de decisão. Efectivamente, tem de assinalar este esforço equilibradamente, permitindo uma ambiguidade entre as medidas tomadas e o conflito moral sentido.

9) Exponha, sempre que puder, as suas crenças conservadoras e o seu modelo de família, mas deixe sempre um pouco de subjectividade no discurso. (http://www.youtube.com/watch?v=QfGjx8UnHI0&playnext=1&list=PL9E39A22A9A611043&index=54 , como se pode verificar, não se refere ao modelo da mulher trabalhadora como algo negativo, simplesmente elogia as mulheres que são donas de casa. O comentário conservadorista é feito tão subtilmente que passa practicamente despercebido)

10) Sobre a crise, mostre-se contra as proposta do Governo, mas enfatize sempre o sentido de responsabilidade que caracteriza o Presidente da República e reforce a ideia de impotência ao ter sido "pressionado" a promulgar diplomas como o do Orçamento de Estado.

11) Nas suas campanhas, apresente-se ao lado da sua mulher, dos filhos e dos netos, dando um exemplo secular de família, essencial num país tão religioso como Portugal.

12) Demonstre total confiança no que faz e diz.

Em linhas gerais: demonstre amabilidade por todos, carinho e generosidade; aposte numa ambiguidade crescente entre as acções tomadas e o que defende, de forma a confundir a opinião pública e convencer o povo de que é O homem de confiança; refira convenientemente a importância da moral e da família.

Após estas medidas depressa se tornará na figura mais querida do povo português. Do que está à espera? Pode ficar como Cavaco nas sondagens: 67,1% !


[Nota: Aposte, também, na manutenção de um bonito cabelo grisalho.]

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Opinião : Infelizmente, a lei vetada a 6 de Janeiro de 2011 não trazia qualquer vantagem. Ali ficou: vetada. Não nos esqueçamos disto ao aplaudir a promulgação do casamento homossexual por parte de Cavaco Silva.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Partidos recebem proposta para tornar pobreza ilegal



Este artigo foi tirado das notícias Lusa/Sol. Um artigo que achei interessante e que espero vir a abordar um destes dias. O tema da pobreza em Portugal. Boa leitura.


A CAIS, uma associação de apoio aos sem-abrigo, vai apresentar uma proposta aos partidos com assento parlamentar para que a pobreza seja ilegalizada e o Estado seja multado por não conseguir reduzir o número de pobres em Portugal.

«Há muito tempo que me preocupa que o combate à pobreza seja feito num contexto de tolerância, ou seja, vai fazendo-se o que se pode ou que, muitas vezes, podendo, não se faz», explicou à Lusa o director executivo da CAIS.

De acordo com Henrique Pinto, os números da pobreza têm vindo a aumentar e «já se fala» que em Portugal atinge 22 por cento da população. Número que poderia chegar aos 41 por cento se não existissem as transferências sociais do Estado, que, segundo Henrique Pinto, «não têm feito mais nada do que aliviar» o problema.

«O que queremos é que a pobreza seja tratada num contexto de total intolerância. É preciso que a pobreza se combata dentro de um contexto de ilegalidade para que seja levada a sério, como a escravatura se aboliu em 1869 em todo o território português no dia 25 de Fevereiro», defendeu.

Nesse sentido, explicou, a associação tem levado a cabo um trabalho de construção de um documento que pretende apresentar aos partidos com o objectivo de que algum o proponha como projecto de lei.

«O que fizemos foi reunir toda a legislação abraçada pelo Governo e dizemos o seguinte: se com esta legislação, que tem muitas vezes a ver com legislação europeia, não conseguimos reduzir os níveis de pobreza, então, das duas, uma: ou a legislação não está a ser cumprida devidamente ou então a legislação em Portugal não chega para reduzir a pobreza», sublinhou.

O documento defende que o «Estado está num total incumprimento» porque a legislação existe, mas os níveis de pobreza em Portugal não diminuem e coloca a fasquia ainda mais alta para o lado do Estado.

«O que vamos exigir do Estado é que ele reduza num ponto percentual o nível de pobreza em Portugal todos os anos. Estamos em 22 por cento neste momento, para o ano deveríamos ser capazes de reduzir para 21 por cento. E caberia à Assembleia da República monitorizar este trabalho», explicou Henrique Pinto.

Se o Estado não for capaz de cumprir essa meta, o documento prevê penalizações que passam por aumentar num ponto percentual o valor das transferências do Estado para as Organizações não-governamentais (ONG) ou para as Instituições Privadas de Solidariedade Social (IPSS) e aumentar também o valor das pensões de reforma mais baixas.

Henrique Pinto disse que o documento já está finalizado e que durante o primeiro trimestre de 2011 será entregue a «alguns peritos», como Marcelo Rebelo de Sousa, Garcia Pereira ou o bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, para darem um parecer.

O documento será depois apadrinhado por figuras públicas que o darão a conhecer em conferência de imprensa e só depois será levado a discussão com todos os partidos para que algum o leve a plenário como proposta de projecto de lei.

Paralelamente, a CAIS vai tentar reunir quatro mil assinaturas para que o documento seja discutido no Parlamento.

«Queremos que seja uma grande provocação nacional», resumiu Henrique Pinto.

Fim do artigo*

Achei interessante este projecto-lei, mas a minha conclusão, embora que imatura, diz-me que este não deixa de ter o seu interesse e relevo mas considero-o demasiado ingénuo. Qual é a sua conclusão? Será este projecto viável?

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A beleza empacotada e capitalizada - Parte I: A Indústria dos Esqueletos


Morreu, no passado dia 17 de Novembro de 2010, a modelo e actriz francesa anoréctica Isabelle Caro. A notícia foi apenas divulgada dia 29 de Dezembro, pelos média. Recordemos que esta modelo aceitou ser fotografada nua para o polémico fotógrafo Oliviero Toscani na Campanha "No Anorexia" pela Benetton. A Campanha tinha como objectivo alertar @s jovens adolescentes e a Indústria da Moda para os efeitos negativos deste distúrbio alimentar (as fotografias da campanha estão à esquerda do texto). Segundo consta, a modelo morreu de complicações associadas a pneumonia.
( http://www.euronews.net/newswires/664045-french-no-anorexia-model-dies-at-age-of-28/ , http://www.youtube.com/watch?v=D9jHlBoAMyU&feature=channel )

Após a publicação destas fotografias, muitas acções se multiplicaram, aqui e ali. Algumas vozes fingiram gritos de preocupação. Gritos associados a uma súbita "descoberta" do número de pessoas com estes distúrbios alimentares (de entre os quais se inclui a bulimia). "Descoberta" esta há muito feita por psicólogos e cientistas. Na verdade, não era preciso uma grande inteligência ou perspicácia para o perceber. Também por volta desta altura, houve a divulgação e exploração mediática de casos de mortes causadas por complicações graves de sintomas do distúrbio alimentar, nomeadamente a da modelo brasileira Ana Carolina Reston que morreu, em 2006, de complicações associadas à anorexia, pesava 40 quilos e media 1.74 metros.

Enquanto tudo isso se passava, cresciam várias comunidades online, ligados ao “grupo” ANA. Este "grupo" vê a anorexia como mais um estilo de vida e personifica a anorexia como uma amiga: a ANA. Essas comunidades dão, na sua generalidade, diversos conselhos sobre como perder peso e atingir o objectivo de magreza mais rapidamente. ( http://www.youtube.com/watch?v=uB1dsmTGFbI )

Evidenciou-se toda a preocupação por parte dos média internacionais sobre o assunto, recorreu-se a entrevistas, reportagens, peritos. Perante esta novidade, o Governo Francês e o Brasileiro (segundo pesquisei, os únicos) decidem tomar uma posição e acção política. Foi então instaurada a lei do punimento de comportamentos que incitem à anorexia ou bulimia, que poderia ir desde uma multa de 30.000 euros a 2 anos de prisão.( http://diganaoaerotizacaoinfantil.wordpress.com/2008/04/15/bons-exemplos-franca-vota-lei-para-punir-incitacao-a-anorexia/ ) Por outro lado, estipulou-se que as modelos exageradamente magras seriam excluídas das passerelles (ninguém se preocupou em fornecer ajuda psicológica a todas, caso fosse necessário). Duas leis que nem feriram de raspão o problema. Coincidência?
De qualquer forma, ambas as leis foram muito aclamadas e aplaudidas "afinal eles até se preocupam com os nossos assuntos", pensou o sempre naîve Zé Povinho.
Em Portugal realizaram-se tímidas medidas de combate ao conceito de "magreza como forma única de beleza", por parte de independentes da Indústria.

O Governo demonstrou interesse, o Povo escutou e aplaudiu. Tudo feliz e contente, parecia que finalmente este assunto tinha sido resolvido de vez e as mortes das jovens tinham sido "vingadas". Muito bem. Os média pararam de incidir e explorar freneticamente o assunto, estava tudo resolvido. Foram brincar com outro brinquedo como seria de esperar de uma criança a quem lhe vão tirando brinquedos sucessivos por ser proibida a sua descoberta. Afinal, argumento que foi aplaudido por muitos, tanta informação só faria com que as jovens desejassem com maior fervor atingir o extremo de magreza.

Por fim, o brinquedo foi deitado para o lixo, ou melhor dizendo, foi guardado na prateleira dos adultos. Depressa entendi que o drama não tinha parado, mas tinha sido antes convenientemente abafado para bem da imagem Governamental e da Indústria da Moda. Coitados que nada poderiam fazer, pois o mal estaria sempre nas adolescentes confusas e perturbadas. "Só necessitam de ajuda psicológica, pois já cortámos com as causas associadas à pressão social."

Mais um passo generoso por parte desta Indústria devoradora de saúde, tal como é a Indústria da Dança e todas as que se preocupem com um conceito fabricado de beleza física-magreza. Muito aplaudido e até com direito a presença no programa "Oprah", gurus que sempre se preocuparam com a imagem "bonita" do magro, assim como em incentivar a anorexia, ousaram organizar desfiles para mulheres "gordas" [com números correspondentes ao 38]. Um dos casos mais marcantes é o facto da actual "Fashion Week", em Paris, incluir números "grandes". Que boa esta caridadezinha por parte dos sistemas Capitalistas! Pelos vistos, estas Multinacionais não magoam ninguém e fazem tudo ao seu alcance pelas pessoas.

Maus maus, piores que os gurus, são os que ainda criticam. Deitam abaixo uma criança que está a aprender erradamente os primeiros passos. Não sejamos tão hipócritas, naîves e esquecidos quanto estes todos. Desde então, fizeram-se críticas satisfatoriamente claras a este sistema pré-fabricado. ( http://www.movimentorevolucionario.org/artigos/anorexia.html ). Estava encontrada a raíz principal e a sua relação com as falhas de um sistema arruinado.

Antes de mais, explicitaremos o peso da intervenção da pressão social na raiz dos distúrbios alimentares:

Para os que não são entendidos na matéria, a anorexia é “uma disfunção alimentar, caracterizada por uma rígida e insuficiente dieta alimentar (caracterizando em baixo peso corporal) e stress físico. (…) A anorexia nervosa é uma doença complexa, envolvendo componentes psicológicos, fisiológicos e sociais.” e a bulimia é “ uma disfunção alimentar. Cerca de 90% dos casos ocorre em mulheres. A pessoa bulímica, de acordo com os critérios diagnósticos do CID 10, tende a apresentar períodos em que se alimenta em excesso, muito mais do que a maioria das pessoas se conseguiriam alimentar num determinado espaço de tempo, seguidos pelo sentimento de culpa e tentativas para evitar o ganho de peso com jejuns, exercícios, vómitos auto-induzidos, laxantes, diuréticos e/ou enemas.”

Definições à parte, não erremos ao julgar que as causas destes distúrbios são somente devidas à pressão social do conceito de beleza, à criação de modelos errados para jovens adolescentes, à discriminação e à constante exclusão de pessoas com formas corporais diferentes das estipuladas pela sociedade. Existem variados motivos, os quais não enunciarei aqui, mas deixarei dois sites com um resumo de alguns (http://en.wikipedia.org/wiki/Anorexia_nervosa , http://en.wikipedia.org/wiki/Bulimia_nervosa ). Não obstante, não podemos ignorar o elevado peso, especialmente num(a) jovem que ainda está a responder à pergunta "Quem sou eu?", da imposição de modelos de beleza (que em certos pontos até contradizem os conceitos biológicos e adaptativos da mesma) e do sentimento de impotência, frustração, exclusão e aumento da falta de auto-estima. Tudo isto pode levar ao trauma de um indivíduo em crescimento.

Deste modo, não seria de esperar que a anorexia de Isabelle Caro fosse fruto de apenas uma causa. Segundo relatou, duas são claras: a pressão e ansiedade criadas pela mãe e a imposição do modelo de beleza feminino fomentado pela Indústria da Moda. Ao longo do tempo, os motivos continuaram a ser os mesmos, mas o valor das implicações foram alteradas ao longo das entrevistas e do crescimento da mediatização sobre o assunto. Misteriosamente, o argumento inicial com maior influência para o desenvolvimento da doença (o modelo de beleza) foi diminuindo de importância e o problema familiar tornou-se mais popular. Curiosa conveniência? Pois bem. (http://www.youtube.com/watch?v=D9jHlBoAMyU&feature=channel - CBS: entrevista em que a modelo fala sobre as causas da sua doença)

Este problema não é exclusivo do mundo feminino. Embora com menor incidência, a Indústria da Moda também estabelece pressão sobre a beleza masculina, estando a aumentar o número de casos observados em homens e fomentando a obsessão pela imagem, tendo por base o mesmo motivo.

Acalmemos as massas. Não é caso único. Outra Indústria do Esqueleto é a da Dança, que sempre exigiu um modelo do esbelto e magro como modelo ideal. Levando à magreza extrema como é o caso de Ana Lacerda (fotografada à esquerda) que, mesmo assim, continua a ter uma posição chave na Companhia Nacional de Bailado. Contraditoriamente, a pressão realizada em bailarinos/dançarinos masculinos é muito menor. A procura de uma mesma profissão para tão pouco investimento dá no que dá.

A notícia passou de boca em boca: desde séries a novelas, programas a anúncios, tudo bate no mesmo. The Biggest Loser, Family Fat Surgeon, Morangos com Açúcar são exemplos. Hoje em dia, quem não incita a este modelo de beleza tem um negócio praticamente arruinado. Parece ser tudo o que o cidadão comum deseja.

Actualmente, duvido que alguém se sinta isento da pressão criada para preencher esta caixinha que não nos cabe.
Essa pressão não está em passerelles, palcos, mas no nosso dia-a-dia, afectando as nossas relações e auto-estima. Quantos de nós não olharam para uma gordurinha como algo negativo? Quantos de nós se sente realmente bem com a sua imagem?

Mas quem nos traz essa visão e qual o interesse nisso?

Ao reduzir os números produzidos, quanto menos tecido for utilizado (menos recursos), e ao criar este desejo louco por um número/figura/ideia, maior compra desses produtos haverá, maior lucro. O desejo tornou-se parte de nós que, levando “pancada” diária e constantes lavagens cerebrais com anúncios, o desejamos mais do que o próprio desejo que realmente sentimos. Tudo por imposição social. Uma evidente técnica capitalista com consequências gravosas.

Após este breve achego à situação actual, inicio a minha crítica política, social e activista. Não estou aqui para fazer mais textos reflexivos, já muito se falou e pouco se fez.

A alternativa será a criação de todo o tipo de tamanhos, sem imposição, mas aceitação da realidade como ela é: variada. Demonstrar um "leque de opções", sem os objectificar nem massificar, mas personalizar. Não se exclui as pessoas naturalmente magras, mas incluem-se as mesmas num leque maior. A criação de pequenas indústrias mas com sucesso, que se importam com o bem-estar e não só com o lucro. A incentivação da personalidade e beleza de cada um. A destruição do modelo único de manequim, que em nada corresponde à realidade. Diminuição da pressão social nos média. Penalização das empresas capitalistas que fomentam esta repressão. Disto todos sabem e falam, mas ataques certeiros e activistas ninguém os faz.

A Associação dos Familiares e Amigos dos Anorécticos e Bulímicos (AFAAB) ( http://afaab.org/index.php?secid=5 ) tem feito muito trabalho, mas não consegue ter uma acção activista e política forte e clara o suficiente para enfrentar "os grandes", até porque não é este o seu objectivo principal.

Por outro lado, não têm existido movimentos, medidas ou decisões políticas concretas, arrebatadoras e capazes de enfrentar quem quer que seja sobre o assunto. Muito se faz sobre Multinacionais, mas não neste tópico. Nem da esquerda.

Rejeito medidas ineficazes como as tomadas pelo Governo Francês, mas medidas anti-capitalista, “pró-personalidade própria” e capazes de fomentar a valorização do direito à diferença seriam certamente valorizadas.

Assim como os especuladores, os fraudulentos e os mercados financeiros não são um conceito abstracto e têm nomes, culpa e vergonha escritas na cara, a criadora destes conceitos irreais são Multinacionais e Companhias reais.
Para uma pessoa de classe média e cliente habitual de Centros Comerciais, estes nomes são comuns: Bershka, Pimkie, C&A ( não tanto mas também), Stradivarius, Triumph, Women’Secret, Pull and Bear (não tanto na secção masculina), Gant, anúncios a perfumes, entre muitos, muitos outros. Basta um dia de compras para nos apercebermos deste facto. Na Dança: o Conservatório Nacional, Companhia Nacional, entre quase todas as Companhias e Conservatórios existentes.
Enquanto o segundo grupo pode ser um ataque polémico quanto à organização da própria arte, que pode ter imensas implicações e levantar mais questões que a ajudar à concretização de objectivos activistas, o primeiro grupo afecta-nos intimamente, é de "fácil" compreensão e resolução e é claramente o maior responsável desta perversão de conceitos.

Temos contra quem nos virar, alvos reais, palpáveis e presentes, não fazemos porque não o desejamos. Talvez porque são grandes demais. Mas nada é grande demais para levar com a responsabilidade do que fazem.
Uma decisão política não chega, mas ajuda. Uma nacional e outra, essencialmente, internacional.

Isto afecta-nos mais do que julgamos. Destrói-nos a personalidade, tal como um bully destrói a das vitimas num bullying constante e masoquista. O Miguel apelidou os portugueses de masoquistas, eu direi que é um problema além-fronteiras. Somos ovelhas reprimidas, homossexuais em tentativa de tratamento de reconversão.

Afinal, o Capitalismo louco é para ser combatido em todas as suas vertentes ou só em algumas?

A notícia desastrosa da morte da modelo foi apenas um pretexto para relembrar a relutância social e partidária em mudar estes conceitos, a custo de vidas e da felicidade dos próprios. Como sempre, temos a noção que somos nós que temos tudo errado, o sistema sabe sempre mais que os próprios. Este é um balanço altamente negativo, feito ao longo de 7 anos, que revela o desinteresse no assunto e a falta de coragem que por aí anda.

Na minha opinião, todas as tentativa com vista à mudança real falharam. É preciso atacar o coração e não só braço, se quisermos realmente matar o mal. Um ataque certeiro e feroz.

Para quando a nossa vida? Continuamos a fingir desejar esqueletos, mesmo que não os desejemos? Continuamos a vender-nos a qualquer preço? A fechar os olhos? A ignorar a importância do assunto? A sermos iguais num sistema que nos quer igual? A fazer tudo por aceitação? Ou está na altura da revolta?!

Caros leitores, as reais porcas da Indústria dos esqueletos somos nós próprios.

Catarina.

[A continuação da crítica à Indústria da Moda continua no post seguinte]


Alguns dos artigos consultados:

http://en.wikipedia.org/wiki/Beauty
http://www.euronews.net/newswires/664045-french-no-anorexia-model-dies-at-age-of-28/
http://www.youtube.com/watch?v=aTIjRxT_Y9g
http://www.youtube.com/watch?v=D9jHlBoAMyU&feature=channel
http://www.youtube.com/watch?v=uB1dsmTGFbI
http://diganaoaerotizacaoinfantil.wordpress.com/2008/04/15/bons-exemplos-franca-vota-lei-para-punir-incitacao-a-anorexia/
http://www.movimentorevolucionario.org/artigos/anorexia.html [20/04/2008]
http://en.wikipedia.org/wiki/Bulimia
http://en.wikipedia.org/wiki/Anorexia_nervosa
http://en.wikipedia.org/wiki/Anti-fat_bias
http://en.wikipedia.org/wiki/Fasting_girls
http://br.noticias.yahoo.com/s/29122010/11/saude-anorexia-morte-modelo-reaviva-alerta.html
"Anorexia e Bulimia" de Isabel do Carmo.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Ciência, política e os exemplos do género e orientação sexual


Nos últimos anos da década de 1920, um ambicioso cientista com poucos escrúpulos ascendia à direcção da Academia de Ciências Agrícolas da União Soviética. O seu nome era Trofim Lysenko, e lograra convencer Stalin de que toda a ciência genética estava errada. A genética foi estigmatizada como «ciência burguesa» e os mais importantes geneticistas (incluindo Nikolai Vavilov) foram presos, executados ou enviados para campos de trabalhos forçados. Em seu lugar, Lysenko e o mecanismo de Estado propagandearam uma «ciência revolucionária» baseada no princípio antidarwinista e antimendeliano da hereditariedade das características adquiridas, despoletando um conjunto de reformas políticas, sociais e agrícolas em larga escala. Como resultado, milhares de milhar de pessoas morreram de fome, devido às reformas agrícolas catastróficas numa agricultura já enfraquecida pela colectivização apressada (e a biologia soviética sofreu um atraso de décadas).

A história de Lysenko, o charlatão que se tornou responsável pela morte de grande parte da população russa, é um exemplo claro das consequências de permitir a manipulação e a distorção do processo científico a fim de atingir uma conclusão predeterminada, ditada por um preconceito ideológico.

A manipulação ideológica da ciência é um problema que não conhece cor política. Seja o mito marxista do socialismo científico ou o darwinismo social da direita neoliberal, ideólogos de ambos os lados da paisagem política asseguram-nos de que os dados da ciência apoiam as suas ideias. Mas a ciência, análise objectiva da realidade, é cega à política. A própria ideia lysenkoista de «ciência burguesa» ou «ciência revolucionária» deveria fazer um arrepio percorrer a espinha do leitor. E contudo é uma ideia que permanece viva, especialmente entre as ciências sociais e humanas.

Não significa isto, naturalmente, que a ciência não deva iluminar o processo de decisão política. Significa, isso sim, que não podemos, por um lado, extrapolar da ciência mais do que aquilo que ela nos diz (falácia naturalística, conforme cometida pelos darwinistas sociais, por exemplo) e, por outro, escolher a dedo que áreas científicas nos agradam, rejeitando as outras (negacionismo, conforme cometido pelos criacionistas e pelos negacionistas do aquecimento global, por exemplo). Em vez disso, devemos aceitar o corpus científico como um todo e deixar este conhecimento guiar as nossas decisões. Como diz o biólogo Richard Dawkins:

«A ciência não tem métodos para decidir o que é ético. Isso é um assunto para os indivíduos e para a sociedade. Mas pode clarificar as questões que estão a ser feitas e esclarecer mal-entendidos. [Por exemplo,] a ciência não nos pode dizer se o aborto é errado, mas pode apontar que o contínuo (embriológico) que liga um feto não-senciente a um adulto senciente é análogo ao contínuo (evolutivo) que liga os humanos às outras espécies (…), [pelo que] talvez seja inconsistente pensar que o aborto é assassínio mas que matar chimpanzés não o é. (…) A ciência não nos pode dizer se é correcto matar “Mary” para salvar a uma gémea siamesa “Jodie”, mas pode dizer que uma placenta é um clone verdadeiro do bebé que alimenta. (…)» (in A Devil’s Chaplain).

Um dos temas mais perturbados por esta tendência lysenkoista de subordinar a fraseologia científica à ideologia política é a questão do género e da identidade sexual. Mais uma vez, os factos científicos são manipulados, ignorados, inventados, distorcidos, omitidos e seleccionados da forma mais inventiva e, mais uma vez, nenhum dos lados do espectro político é inocente.

A esquerda, por exemplo, é culpada de ignorar a influência biológica nos comportamentos associados ao género. Esta questão é parte de um leitmotif mais abrangente da esquerda: a negação do substrato biológico como influência do comportamento humano. Ninguém duvida que os genes podem dar forma à anatomia. Contudo, a ideia de que também podem dar forma ao comportamento é oposta ao conhecimento convencional que dominou a psicologia e todas as outras ciências sociais no século XX — ciências sociais essas que têm sido vastamente influenciadas pelo pensamento esquerdista. Assim, a academia esquerdista tem tendência a acusar tudo aquilo que entende (erradamente) como «determinismo genético» — um conceito mal definido e, em grande medida, inventado, que não é defendido por nenhum cientista sério — enquanto o substitui, bizarramente, por outras formas diversas de determinismo para ocupar o seu lugar: cultural, linguístico, parental-freudiano, socioeconómico, político, paritário, de estímulo/resposta, entre outros. Assim, numa diversão que durou quase um século, os cientistas sociais lograram persuadir pensadores de muitos tipos que a causalidade biológica era determinismo enquanto que a causalidade ambiental preservava o livre arbítrio.

Desta forma, sociólogos e psicólogos behaviouristas, marxistas e freudianos (por exemplo) tapam os ouvidos à evidência de que a biologia influencia o comportamento associado ao género. «Os rapazes só brincam com carros, e as meninas com bonecas, porque a sociedade assim o determina!», asseguram, apesar da evidência experimental em contrário (como os estudos em que macacos preferem brincar com carros ou bonecas, dependendo de serem machos ou fêmeas, embora não haja pressão social nesse sentido dentro das suas «sociedades»).

Nos anos 1960, nos Estados Unidos, uma circuncisão mal-sucedida deixou um rapaz com o pénis gravemente danificado, que o médico decidiu amputar. Foi decidido tornar o bebé numa rapariga por castração, cirurgia e tratamento hormonal. John tornou-se Joan: vestia vestidos e jogava com bonecas. Em 1973, John Money, um psicólogo freudiano, afirmou publicamente que Joan era uma adolescente bem ajustada, pondo um fim à especulação: os comportamentos associados ao género eram, proclamou Money, constructos sociais. Só em 1977 é que alguém verificou os factos. Quando Milton Diamond e Keith Sigmundson procuraram Joan, encontraram um homem, alegremente casado com uma mulher. A sua história era muito diferente da contada por Money: tinha-se sentido profundamente descontente enquanto criança, sempre quisera usar calças, misturar-se com os rapazes e urinar de pé. Terminou o tratamento hormonal, mudou o seu nome de novo para John e casou-se aos 25 anos.

A conclusão é que os rapazes e as raparigas têm interesses sistematicamente diferentes desde o próprio começo do comportamento autónomo. Convergentemente, evidência cromossómica (o chamado imprinting genético) sugere que o cérebro é um órgão com um género inato.

Que a cultura influencia os comportamentos associados ao género, não há dúvida. A questão não é se a cultura terá algum papel a tomar, porque ninguém alguma vez negou que o faça. Mas que a biologia não tem qualquer influência nos mesmos é uma falsidade igualmente grande. O debate nature vs nurture (natureza vs educação) baseia-se sobre uma falsa dicotomia, e a evidência combinada da biologia, da psicologia e da sociologia converge agora para a ideia de que tanto o substrato biológico como o ambiente social desempenham o seu papel na determinação do comportamento.

Temo ser mal interpretado na minha exposição: quase consigo ouvir teóricos queer a acusarem-me de promover uma dicotomia inexistente entre «rapaz» e «rapariga», lembrando-me de que não há uma relação causal entre sexo e identidade de género. Porém, tais hipotéticas críticas são desnecessárias e falham o ponto, na medida em que eu concordo que a distinção entre as identidades de género é artificial e arbitrária — é uma distinção abrupta entre dois géneros conformes aos preconceitos de uma sociedade heteronormativa e essencialista.

Como disse Lineu, o biólogo que sistematizou a nomenclatura científica binominal para as espécies vivas, natura non facit saltum («a natureza não faz saltos»): a biologia funciona em espectros contínuos e não em pretos e brancos. É de esperar que a distribuição dos comportamentos associados ao género seja, estatisticamente, gaussiana, caindo os comportamentos numa curva em forma de sino. As proposições da biologia são, pela natureza desta ciência, aproximações e generalizações: o comportamento heteronormativo corresponde à média da curva (o ponto de ordenada mais elevada), mas é de esperar todo o contínuo de posições associadas aos restantes pontos do domínio da função.

Portanto, quando dizemos que «os rapazes e as raparigas têm interesses sistematicamente diferentes», referimo-nos a casos-tipo e não se exclui (pelo contrário, é de esperar) que existam indivíduos com comportamento dissociado daquele identificado para a média da população de igual sexo anatómico.

Em adição, é importante não cair na já mencionada falácia naturalística: estas constatações não significam que comportamentos associados ao género oposto, ou mais genericamente não-heteronormativos, devem ser desencorajados, ou punidos, ou que são antinaturais. Tratar os comportamentos não-heteronormativos como anómalos é contrário a uma correcta interpretação estatística dos dados científicos.

As hipotéticas críticas segundo as quais a influência biológica no comportamento associado ao género é contrária à teoria queer são, portanto, infundadas.

Mas dizia eu, anteriormente, que o lysenkoismo é um pecado cometido tanto à esquerda como à direita. Nenhum dos lados do espectro político é inocente. Se, por um lado, a esquerda na qual me integro ignora a influência do condicionamento genético, por outro lado, a direita conservadora é profícua em neuroses sexuais, impondo normas de vida que distinguem as pessoas em géneros polarizados (masculino e feminino) com papéis naturais distintos e cumpridos através de relações sexuais e maritais heterossexuais.

Os conservadores caem, portanto, no erro oposto: procuram moralizar o comportamento que vêem como «natural», associando comportamentos não-heteronormativos a piáculos antinaturais que devem ser reprimidos. Por esta altura, o leitor identificará provavelmente a falácia naturalística inerente a este pensamento.

Mas a intolerância conservadora em relação ao comportamento não-heteronormativo vai frequentemente mais além desta abordagem, procurando caracterizar tais comportamentos como «doenças que podem ser tratadas» ou como «escolhas».

«Devemos ter cuidado em aceitar a afirmação de que algumas pessoas ‘nascem para ser gays’, não apenas por ser falsa, mas porque providencia apoio às organizações de direitos dos homossexuais», escreveu a conservadora Lady Young no Daily Telegraph a 29 de Julho de 1998.

Contrariamente, a evidência científica aponta para a conclusão de que a homossexualidade é uma propensão inata, biológica, em vez de ser consequência de pressões culturais ou de escolha consciente. Não há qualquer sombra de dúvida de que a homossexualidade é altamente hereditária. Num estudo, por exemplo, entre cinquenta e quatro homens gays que eram gémeos falsos, doze tinham gémeos que também eram gays; e entre cinquenta e seis homens gays que eram gémeos idênticos, vinte e nove tinham gémeos que também eram gays. Dado que os gémeos partilham do mesmo ambiente, quer sejam falsos, quer sejam idênticos, tais resultados implicam que um ou mais genes são responsáveis por cerca de metade da tendência para um homem ser gay. Uma dúzia de outros estudos chegou à mesma conclusão.

Qual é, então, a explicação genética da homossexualidade? Este é um tema complexo que não está perto de chegar a uma resposta definitiva; porém, parece haver dois indícios que explicam satisfatoriamente a homossexualidade no caso de homens (pessoas com sexo biológico masculino, i.e., com um cromossoma Y funcional). As explicações para o lesbianismo não são claras, mas a assumpção razoável é que são igualmente genéticas (embora não pareçam ser determinadas pelos mesmos genes que actuam no caso da homossexualidade em homens).

A primeira explicação para a homossexualidade em homens parte de um estudo de Dean Hamer, que entrevistou 110 famílias com membros gays, tendo notado que a homossexualidade em homens corre pela linha feminina. Isto sugere que o gene para a homossexualidade jaz no cromossoma X (o único conjunto de genes que um homem herda exclusivamente da sua mãe). Comparações de marcadores genéticos apontam especificamente para a região Xq28 (homens gays partilham a mesma versão desta região 75 % das vezes, o que estatisticamente exclui a possibilidade de coincidência com um intervalo de confiança CI = 99 %).

A ideia de um alelo (versão de um gene) que determine a homossexualidade parece bizarra, porque tal alelo seria rapidamente eliminado pela selecção natural (esta mesma razão exclui, a propósito, explicações adaptacionistas para a homossexualidade). Contudo, o biólogo evolutivo Robert Trivers sugeriu uma justificação baseado no estudo de Dean Hamer: um cromossoma X passa o dobro do tempo em mulheres do que em homens (as mulheres têm genótipo XX, os homens XY). Assim, um gene sexualmente antagonístico (i.e., que tem um efeito diferente dependendo de estar num homem ou numa mulher) que beneficie a fertilidade feminina (aumentando as hipóteses de os seus portadores se reproduzirem se forem mulheres) sobrevive, mesmo que tenha um efeito deletério duplamente grande na fertilidade masculina.

A segunda explicação para a homossexualidade parte da constatação, cada vez mais clara, de que a orientação sexual está correlacionada com a ordem de nascimento: um homem com irmãos mais velhos tem maior tendência para ser gay (cada irmão mais velho parece aumentar a probabilidade em um terço). Este efeito foi verificado na Grã-Bretanha, na Holanda, no Canada e nos EUA, em muitas amostras populacionais diversas.

A explicação freudiana para este efeito (que a dinâmica de crescer numa família com irmãos mais velhos predispõe para a homossexualidade) está provavelmente errada. A resposta jaz uma vez mais no antagonismo sexual genético.

Não há efeito análogo para lésbicas, que estão distribuídas aleatoriamente dentro das suas famílias. Em adição, o número de irmãs mais velhas é irrelevante na previsão de homossexualidade masculina. A melhor explicação diz respeito a um conjunto de três genes activos no cromossoma Y (aos quais chamaremos genes H-Y) que sintetizam o «antigénio menor de histocompatibilidade H-Y». Este composto sintetizado pelos genes H-Y é semelhante (mas não igual) à hormona anti-Mulleriana, uma substância vital à masculinização física dos genitais.

Um antigénio (como o composto sintetizado pelos genes H-Y) é um composto que, quando introduzido no corpo de outra pessoa, provoca uma reacção do sistema imunitário. Por exemplo, muitas bactérias patogénicas têm antigénios, pelo que ao serem introduzidas no nosso corpo, o nosso sistema imunitário reage contra elas. No caso dos genes H-Y, a síntese do composto por parte do bebé provoca uma reacção do sistema imunitário da mãe durante a gravidez. O sistema imunitário da mãe procura combater este composto.

Ora, da mesma forma que após uma infecção por parte de determinada bactéria patogénica ficamos imunizados contra ela (i.e., o sistema imunitário «aprendeu» a reagir contra os antigénios bacterianos), assim acontece nas sucessivas gravidezes masculinas. O sistema imunitário da mãe «aprende», nas sucessivas gravidezes, a reagir contra os antigénios produzidos pelos genes H-Y.

Desta forma, um ventre que já alojou bebés masculinos está imunizado contra o antigénio produzido pelos genes H-Y do bebé e impede que este actue sobre o mesmo. O efeito da ausência deste antigénio no bebé parece ser a maior tendência para a homossexualidade. Numa experiência em que ratos de laboratório bebés foram imunizados contra os antigénios H-Y, eles cresceram incapazes de se reproduzirem.

Estes são os dados experimentais, empíricos e verificáveis que a ciência nos fornece. São filtrados pelo processo de revisão paritária, porque nas revistas científicas os editores procuram revisores que critiquem os artigos a fim de assegurar a sua validade. Estas são as formas encontradas pela ciência para promover a objectividade das suas conclusões. A ciência pode dar, portanto, grandes contributos na resolução dos nossos problemas sociais, ao ajudar-nos a basear as nossas políticas e julgamentos na realidade.

Os ideólogos, por contraste, preferem inventar as leis da natureza. Quando ideólogos ditam a ciência, ficam emaranhados nas suas próprias mentiras; a sociedade, tendo abandonado o método científico, perde o seu referencial empírico, e a verdade torna-se relativa.

Tal politização lysenkoista da ciência, tanto da esquerda como da direita, tenderá a crescer à medida que a biologia afecta cada vez mais as nossas vidas — desvendando os segredos dos nossos genes e do nosso cérebro, dando novas formas às nossas origens e à nossa natureza, adicionando novas dimensões à nossa compreensão do comportamento social.

A lição crucial a tirar da história de Lysenko é o perigo de propagar ideologias políticas sob a guisa de ciência.