Hoje deparamo-nos com várias correntes e pontos de vista que florescem. Uns mais à esquerda outros mais à direita. Vimos neste século o florescimento de teóricos como Toni Negri, David Harvey, Tony Judt, Slavoz Zizek, Noam Chomsky, Elinor Ostrom, Boaventura Sousa Santos, José Reis, entre muitos outros a desempenharem um papel essencial na cena intelectual e no debate teórico à esquerda tanto a nível nacional como internacional.
Enquanto uma esquerda mais moderna ouve atentamente os novos teóricos, outra limita-se a repezinhar os velhos santos padroeiros da esquerda e a adoptar os seus discursos, análises, e livros como fundamentalistas religiosos.
É nestes casos que a religião e a política se assemelham mais intensamente.
Existe um culto em certas áreas políticas de preservar um certo vocabulário que só interessa aos próprios crentes/militantes e que só eles sabem decifrar. Alguns até vibram quando alguma dessas palavras são proferidas, entrando quase em estado pós-hipnótico. Burguesia, proletariado, operariado, entre outros arcaísmos que a sociedade contemporânea percebe, mas que absorve estas palavras como quem come um pastel de nata fora do prazo. As palavras cheiram a bafio. Não têm eco na sociedade, só mesmo nos corredores destes partidos e movimentos. Falar nesta linguagem oitocentista é falar para dentro.
Não só é preciso adoptar um discurso mais contemporâneo. Com uma linguagem que não vá na mesma linhagem que o "Das Kapital" de Karl Marx. Que não caía na constante repetição da análise marxista que todos nós conhecemos. Que tem todo o mérito. Mas que não basta, e é insuficiente para os dias de hoje. É preciso uma renovação do método de análise da sociedade.
Depois de uma revolução tecnológica, cientifica digital e de uma sociedade pós-moderna que enfrenta desafios novos e complexos, não será viável perder muito tempo a revisitar santos como Lenine, Trotsky, Mao, como muitos outros. Não faz sentido. A não ser num ponto de vista mais historicista e numa "de aprender com os erros do passado".
É preciso romper com o tradicionalismo de esquerda e com todo o sacralismo que alguns gostam de fazer à volta de figuras como essas, transformando-as em santos rebeldes e anti-capitalistas, e os seus fiéis em gentes de uma procissão esquizofrénica e oitocentista, que ruma em direcção a uma pátria vermelha que os próprios não sabem dizer o que é. Mas que julgam sentir ao longe como um evangélico sente Deus quando entra em transe.
É preciso acabar com esta mitologia, com esta sacralização, com esta ideia de fado, com o repisar os mesmos ídolos e personagens o resto da vida. São coisas que não fazem sentido à maior parte da juventude de hoje e até a mais seniores. Quer-se uma ideia radical? Essas não o são de certeza, a de Trotsky, Lenine e Mao, que já há algum tempo foram corcomidas pelas traças.
A resposta está nos vivos, e não em mortos que já jazem nas suas campas há mais de um século.
É preciso não esquecer as suas obras, mas daí vai uma diferença enquanto a por as mesmas no pedestal da actualidade, e a procurar respostas para os problemas actuais vindas daí.
É preciso menos teoria crítica pura e menos alternativa política à priori. É urgente uma análise cientifica baseada em factos e em experiências empíricas e com métodos científicos do século XXI, coisa que a esquerda não se tem empenhado a fazer.
É preciso uma esquerda que experimente, que pesquise, que analise com mais detalhe e rigor cientifico. Uma que desconstrua os dogmas e que acabe com o espírito messiânico de uma certa esquerda inspirada inconscientemente pelo messianismo judaico-cristão. Paira por aí uma esquerda que espera por uma "revolução", que nascerá num dia de nevoeiro sabe-se lá por que razão e instaurará a utopia socialista, e seremos todos felizes para sempre. Esta crença tem que ser desconstruída. Para o bem de quem quer mudar as coisas realmente existentes.
Deixar o fetiche puramente ideológico e as utopias puras e ingénuas e pensar nas sociedades que foram mais longe na realidade em termos de alcançar os ideais do bem-estar, justiça social, democracia, liberdade e solidariedade. E pensar em métodos organizacionais que possam ser aplicados na realidade e experimentá-los. Exemplos como o OE participativo, o conceito "the commons" (de Elinor Ostrom), Demoex, entre outros projectos bastante interessantes que precisam de ser postos em prática que envolvam relações sociais novas, e novas formas de produção e preservação naturais.
É preciso desconstruir o mito de que o próximo modo de produção será determinadamente o modo de produção socialista e por consequente comunista. Isto é uma das crenças mais irracionais do pensamento marxista, que deve ser desconstruído e posta a nu.
Apelo a todos os interessados no debate e no progresso social que se faça um debate mais inovador, baseado mais em factos e experiências empíricas que em dogmas e escrituras de autores que já morreram há mais de um século.
É altura do método científico ser utilizado com mais intensidade. É altura de começar a incluir teorias e análises vindas de áreas como a sociobiologia, e de incluir mais análises vindas de áreas como a criminologia ou ciências jurídicas.
As análises sociais, e as alternativas sociais venham de onde vierem só poderão ser realmente positivas se envolverem no seu processo intelectual uma riqueza e pluralidade de análises, de disciplinas, de pessoas diferentes mas tolerantes. Não precisamos de mais dogmas ou esquerdas messiânicas que usam "O Capital" nas suas rezas ou outro holy book.
A esquerda advoga a mudança, mas a mudança na esquerda também é complicada.
Ar fresco. Anti-dogmático. Racionalidade, pragmatismo, tolerância e muita pluralidade.
O pior defeito da esquerda não está em ser demasiado anti-capitalista ou social-democrata, mas em ser dogmática.
Não deixa de ser engraçado como uma certa esquerda se aproxima da religião na sua lógica irracional, fé messiânica, determinismo e culto de personagens e livros de uma forma sacra, literal e tão pouco crítica e mesmo conservadora.


